Nadando Contra A Maré
"A pista está um mel para os solteiros, mas um inferno na terra pra quem quer amar"
Fortaleza, a tricentenária capital cintilante do nordeste brasileiro, cidade que tenho o prazer de chamar de lar, é uma terra movida por contradições.
Ao contrário do que o nosso consenso popular interno faz parecer, a terrinha é farta de ótimos ambientes de diversão cotidiana para turistas e novos habitantes.
Além das sempre citadas praias, há museus, parques, praças, teatros, shoppings, estádios. Pecamos em preservação histórica de longa data, mas temos nossas tradições e nossos points de valor. Nos autodepreciamos por costume antigo, hábito este que vem se reduzindo conforme a capital cresce economicamente.
Por outro lado, do contrário do que imaginam os turistas pelo que é propagado por uma galera, a vida noturna alencarina é bastante recatada e tépida quando comparada com a noite dos principais centros urbanos do país (e da própria Fortaleza de antes da pandemia de Covid-19).
A festa encerra cedo em Fortal City. São múltiplas cenas, bastante movimentadas, mas quase tudo acaba antes que a reprise da novela termine na Globo. Este pode até ser um fenômeno nacional, mas que salta aos olhos no nosso caso pelo contraste entre efervescência e efemeridade de uma mesma folia.
Talvez incoerências coerentes como estas ajudem a explicar um pouco a seguinte máxima (que capaz que vale pra todo o Brasil, mas aqui examinarei pelo viés 085 da coisa):
A “pista” está um mel para os solteiros, mas um inferno na terra pra quem quer amar.
Esta frase é generalista demais para se afirmar como fato? Com certeza.
Mas isto aqui é uma crônica tola escrita por hobby e exercício criativo, não um artigo científico, caro leitor. E sendo o substack Anemoia o quadro em branco do meu pensamento, vejo essa fala como uma leitura precisa sobre o atual panorama romântico do mundo que me cerca.
Há duas formas de dissecar estas aspas: uma ampla e outra pessoal. Comecemos pela visão mais abrangente:
As pessoas estão cada vez mais preocupadas com as pequenas futilidades de curta duração que pilastram as dinâmicas de comportamento da sociedade TikTokificada.
As relações líquidas saem como urina e cabem num Youtube Shorts. Como o foco principal do indivíduo fica dedicado à manter e/ou conseguir um faz-me-rir (justo, consequência inata da normalização do sub-emprego & culpa do capitalismo) e em mais algum outro objetivo pessoal complementar (adquirir shape com dieta, academia & otras cositas más; acordar 4 da manhã para rezar um terço; estudar, cuidar de um pet etc), namorar fica num perpétuo segundo plano. Se rolar, rolou. One Night Stand na veia.
Beleza, é um modo válido de tocar a vida, mas pode ser uma mentalidade capciosa para aqueles que, no fundo, sentem o corisco de querer algo a mais no coração e se negam a ter a experiência por estarem hipnotizados pela ideia de que somos instituições super regradas apenas por termos uma conta no Instagram e carteira de trabalho. Ter pena de viver não é saudável, é excesso de zelo.
Case In Point: Recentemente, viralizou na bolha de Fortal a fotografia de um casal dançando forró sob chuva na Estação das Artes (outro excelente ambiente da cidade), vivência-ápice do imaginário romântico popular.
Poucas horas depois, boatos mil sobre traições cabulosas surgiram nas redes. Ossos do ofício? Difamação de internautas amargurados com o amor alheio? É de se ponderar sobre as feridas-abertas que a privacidade esconde. A real é que nada tira o brilho daquele momento pros dois e pra nós, os sonhadores que se encantaram com a cena, mesmo que seja mais fantasia que a verdade nua e crua do amor possível.
Eis o meu diagnóstico geral. No âmbito pessoal e intransferível, eu acredito que há fases para tudo na vida. Papo batido, mas os terceiros que se responsabilizam por manter sua saúde mental em dia (sejam eles da igreja ou da terapia) repetem isso por um bom motivo: é verdade.
Não, eu não acho que é “tudo no tempo de Deus” e também discordo que a atitude “deixa a vida me levar, vida leva eu” seja um predicado infalível. Mas é que o que é: às vezes não aconteceu porque não era pra acontecer. Se era, não foi. Faz parte! Siga la pelota. Se te incomoda estar solteiro, faça por onde pra mudar isso, sabendo que não depende só da sua força de vontade.
Às vezes sinto que existem ondas de relacionamentos (começando e chegando ao fim). Em determinado período do ano passado, vi muita gente dos meus amigos, conhecidos e parentes desencalhando. Solteiros convictos dando uma chance à vida a dois. O gaiato que vos escreve vivenciou uma janela de tempo na qual um relacionamento sério esteve em questão; tão pouco usual pra mim que dei pra trás na situação e me vi sozinho em meio a uma avalanche de novos casais.
Agora, recentemente, percebi muitos términos na minha bolha. Não só dos que começaram nos últimos tempos, mas alguns namoros de anos a fio. Enquanto isso, sigo solteiro, mas com pouquíssimo ímpeto de manter esse status.
O amor por uma cara-metade dá trabalho. Exige esmero, dedicação, maturidade, paciência. Cansa, mas se é genuíno e consensual, rende um coração quentinho e uma paz única e sublime na alma.
O amor ao ócio romântico também dá trabalho, mas tende a ser mais divertido, aventuresco e menos puxado pro lado esquerdo do peito - até segunda ordem.
A questão é que ninguém garante que o seu amor é a escolha certa.
Nadar contra a Maré por inércia é tolice. Agir por efeito manada, idem.
Bem, no fim das contas minha opinião pessoal sobre o assunto está repleta de avaliações gerais que valem pra tudo e todos, enquanto minha avaliação geral vem recheada de takes particulares.
Fazer o quê? Como bom solteiro-romântico Fortalezense, minhas contradições são tão inevitáveis quanto necessárias.
Um dia ainda desentorto as linhas escolióticas do meu texto com um amor tranquilo. Até lá, eu não sei, vocês é que vão saber.




